quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Recomeçar

Faz exactamente 11 meses desde o meu último post. Pode parecer propositado, mas tratou-se de um mero acaso, uma coincidência feliz. Lembrei-me assim, meio que do nada, deste blog, esquecido e abandonado entre tantos outros da blogosfera. Tinha noção que o meu último post tinha sido, justamente, a prometer ser mais activa, a escrever mais, a não o deixar largado. Porque a verdade é que escrever faz-me bem. Com muito ou pouco público, escrever é algo que me alivia nos momentos maus, me diverte e me distrai. Desta vez não vou fazer promessas vãs. Mas vou tentar manter em mente com me é importante escrever. E se alguém desse lado estiver a ler, olá :)

Muito se passou neste (quase) um ano. Novidades, muitas, mas aos poucos lá irei. Quero recomeçar este blog, a abordar um tema que evito, mesmo na minha esfera pessoal. E quero fazê-lo porque preciso de o desmistificar na minha mente, preciso encara-lo com mais naturalidade, não me sentir constrangida por o admitir, como se fosse um segredo feio que me envergonha. Porque, pensando bem, qual o mal de sofrer de ansiedade? 


Começou em Setembro de 2014. Começo pelo início, talvez porque organizar as coisas de forma cronológica, relatando os eventos mais distantes torna as coisas um pouco mais fáceis, como se fosse algo distante. Infelizmente, tenho aprendido (e ainda estou a aprender) que infelizmente a ansiedade provavelmente vai ser algo que nunca deixarei no passado. 

É complicado explicar como começou. Hoje sei que já tinha tido episódios anteriores, isolados, aos quais não dei importância e que nem identifiquei como ataques de ansiedade. Sempre fui uma pessoa com tendência a sofrer por antecipação, a ficar a matutar nas coisas, a remoer, o meu estômago ficava embrulhado antes dos exames, era impossível comer. Mas não ligava, eram só nervos, pensava eu. Até aquele fatídico mês de Setembro em que o meu mundo desmoronou. Durante muito tempo tentei perceber o motivo, o que tinha acontecido, querendo isolar um evento em específico que justificasse tudo aquilo, até porque, supostamente, era uma miúda com tudo para ser feliz, sem problemas de maiores. Com 24 anos uma rapariga lá tem problemas para tanta ansiedade? Ridículo, muitos pensarão. Eu também pensei. 

Eventualmente, com a ajuda da minha psicóloga, compreendi que não havia um motivo. Não havia uma razão que eu pudesse isolar, resolver e pronto, a ansiedade ia-se embora. Problemas familiares, o início de um relacionamento com o qual eu não estava confortável e com uma pessoa que não me fazia e a minha própria personalidade, tudo contribuiu para um ponto de ruptura em que o meu corpo não aguentou mais. Setembro de 2014 foi um dos meses mais complicados da minha vida. Acordava todos os dias, quase sem excepção, a sentir-me fisicamente doente. A minha ansiedade afectavamente especialmente o estômago, portanto, estava constantemente enjoada e se tentava comer, tinha o estômago tão embrulhado que vomitava logo de seguida. Cheguei a um ponto de ficar tensa só por se  aproximar a hora das refeições. Sentia-me sufocada, angustiada, como se não conseguisse respirar normalmente. Estava acima de tudo, assustada. Não sabia como lidar com a ansiedade e naquele momento, em que tudo me parecia negro e sem esperança, achava que ia viver naquele estado para sempre. Como poderia vir a ser advogada com crises de ansiedade? De repente, o meu futuro risonho parecia fechar-se. 

Aos poucos, as coisas melhoraram. Tomei medicação para me ajudar nos primeiros tempos a controlar a ansiedade e fiz terapia. Inicialmente uma vez por semana. Vinha de lá esgotada e só me apetecia dormir. Eu, sempre tão reservada, a ter que me abrir, a partilhar os meus pensamentos mais íntimos com uma completa estranha. Era-me extremamente difícil, algo que sentia quase como contra-natura. Mas notava melhorias, por isso, nunca falhei uma consulta. Estava determinada em vencer o meu bicho-papão: Transtorno de Ansiedade Generalizada.

E venci. Mais ou menos. Depois de 9 meses de terapia (que se tornou mais espaçado ao longo do tempo) e após largar completamente a medicação, eu sentia-me bem. Já não acordava com um aperto no peito. As refeições não eram um tormento. Estava a recuperar peso. Acima de tudo, estava feliz e pronta para começar o meu estágio. Foi mais ou menos um ano depois tudo ter começado que criei este blog. E o ano seguinte passou a correr, tão a correr que até o blog ficou abandonado. Entre mestrado, estágio e a minha vida pessoal, chegava ao final do dia estourada. Talvez por isso não tinha grande energia para o "overthinking" esse grande inimigo da ansiedade. Durante mais de um ano, não soube o que eram ataques de ansiedade. Mantinha a medicação de SOS em casa, just in case, mas nem me lembrava dela. E 2016 foi um ano tão bom, tão especial, com tantas conquistas a nível pessoal e profissional, que não estava nada à espera disto. 2017 começou e a minha ansiedade voltou. E de uma forma avassaladora. Os sintomas não se manifestam tão fortes como em 2014, mas tenho tido ataques de ansiedade repetidamente. E volto a sentir-me assustada, assombrada com este fantasma que eu achava que tinha exorcizado. 

Sei que hoje estou mais forte, mais preparada do que em 2014. E tenho o apoio de mais pessoas, para além da minha família, posso contar com o meu namorado, com os poucos amigos a quem admiti esta minha... particularidade. Tenho evitado chamar-lhe problema ou defeito, porque devo evitar pensamentos negativos sobre a minha ansiedade. Mas lá no fundo, mesmo que eu não o admita em voz alta, é assim que a sinto. Como um defeito, algo que me torna mais fraca, que vai afastar os outros de mim. É muito complicado explicar às pessoas que, às vezes, aparentemente sem motivo, não estamos bem, que o nosso cérebro acredita que estamos em perigo ou que algo de muito mau vai acontecer. E é ainda mais complicado combater os pensamentos negativos que nos passam pela cabeça durante um ataque de ansiedade. Então, quando estou bem, como agora, procuro fortalecer-me com pensamentos positivos, memórias tranquilizadores e repetir, como uma mantra: "Sou forte, sou amada e vou vencer isto outra vez. É só uma fase". E de resto, é viver um dia de cada vez. E quando a ansiedade me derrubar, levanto-me e recomeço a caminhada outra vez.


2 comentários:

  1. :) fico feliz que tenhas encontrado o teu caminho e que estejas melhor! e bem vinda de volta ^^

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